“Aparentemente teremos uma recuperação” – Victoria Werneck

Por blogicatu

“Aparentemente teremos uma recuperação em V,
mas não sabemos se isso continuará”

Victoria Werneck, economista-chefe da Icatu

Todo mês a newsletter da Icatu traz até você uma análise do panorama econômico pela economista-chefe da Icatu Seguros, Victoria Werneck. Nesta edição você encontra o resumo da live feita por ela no canal da Icatu no YouTube, em 27 de agosto. 

A economista iniciou a palestra afirmando que os dados da atividade econômica no Brasil e no mundo são bem melhores do que os de julho. Entretanto, há ainda muitas incertezas diante da pandemia do coronavírus: quando teremos uma vacina? Como evoluirá a economia? Quais são as perspectivas de saída paulatina do distanciamento social e os riscos de retrocesso envolvidos?  Em que medida a brutal expansão do gasto público ocorrida em 2020 poderá de fato ser revertida? Terá o governo disposição e condições políticas para retomar em 2021 a agenda de política econômica que foi deixada de lado em função da pandemia? Quão enfraquecido ficará o governo em decorrência dos equívocos no combate à pandemia, da recessão e da crise política que vem enfrentando?

Aumentando o clima de incerteza, no último mês, houve uma debandada de pessoas da equipe econômica do Governo. Há dúvida até mesmo se o ministro da economia Paulo Guedes permanecerá no cargo. “Existe uma pressão muito forte de outros ministérios por um aumento de gastos permanente”, disse ela, dizendo que a derrubada pelo Senado do veto de Bolsonaro em relação ao aumento de salário de funcionários públicos significa um aumento de gastos de quase R$ 130 bilhões por ano para os três níveis de governo. “O Bolsa Família, que é um programa importante, voltado para os brasileiros pobres, que não têm o que comer, gasta por ano R$ 33 bilhões de reais. A derrubada do veto representa quatro bolsas famílias por ano”, comparou ela, dizendo ter esperança de que a Câmara reverta a situação.

Victoria apresentou também a previsão de crescimento do PIB, que melhorou, e o resultado fiscal previsto para os EUA, zona do Euro, Reino Unido e Japão, em 2020, segundo o Fundo Monetário Internacional e a revista The Economist. Em relação ao resultado fiscal, os dados apresentam um aumento brutal do déficit público. No Brasil o déficit chegou a 14% do PIB; nos EUA, a 15,9%; na área do Euro, 9,4%; no Reino Unido, a 18,1%; no Japão, a 11,4%; e, na China, a 6%. 

Projeções

Durante a palestra, a economista apresentou um gráfico de projeções de crescimento, comparando a economia global, as economias avançadas e as economias em crescimento e mercados emergentes, em 2019, 2020 e 2021. Segundo dados do FMI, a expectativa é de uma queda de 4,9% da economia global em 2020, sendo as economias avançadas as mais afetadas. Entre os países emergentes, o que inclui a China, a queda média do crescimento é de 3% do PIB, tendo o Brasil uma expectativa de queda de aproximadamente 6%. 

Outros números apresentados foram de inflação e taxa de desemprego na zona do Euro e nos EUA em 2020. “Os dados são espantosos. Nem na Grande Depressão, de 1929, tivemos dados dessa ordem”, disse ela. Entretanto, Victoria ressaltou o índice Zew de sentimento econômico na Alemanha, que pulou de 59,3, em julho, para 71,5, em agosto, comparado ao consenso de mercado, de 58 pontos. “Esse dado de expectativa econômica na Alemanha é o melhor desde janeiro de 2004”, destacou. 

Sobre a expectativa de crescimento do PIB em 2020, Victoria apresentou as projeções para diversos países. A China sai na frente, com crescimento de 1,4%. Já a Espanha vai para a pior posição, com uma queda de 12,6% do PIB neste ano. Estados Unidos aparece com -5,3%; e, Brasil, com -5,5% (fonte EIU).

Victoria apresentou em seguida as projeções focus das principais variáveis econômicas brasileiras, de dezembro de 2019 a 14 de agosto de 2020, segundo o Banco Central (BC), consenso do mercado. Os dados mostram o forte impacto da pandemia nos resultados do IPCA, câmbio, Selic, PIB, balança comercial, resultado primário e resultado nominal. “Se o aumento brutal do gasto público ficar restrito a 2020, está bem. Se a incerteza permanece sobre o que será em 2021 e 2022, aí é complicado”, disse.

Nos últimos 12 meses até julho, o IPCA ficou em 2,31%, sendo a meta de 2020 de 4%. “Estamos com o IPCA abaixo do limite inferior”, disse ela. A expectativa para este ano é de 1,67%. “O BC não vai conseguir entregar o limite inferior das metas de inflação, que é de 2,5%. Pelas projeções de mercado, tampouco isso acontecerá no ano que vem, cuja meta é de 3,75%”, previu a economista.

Sobre a produção industrial, “temos mais dados para acreditar que abril de fato representou o fundo do poço”, disse. A economista comparou os resultados dos setores de bens industriais, bens intermediários e bens de consumo e da indústria em geral, destacando uma sensível melhora de junho em relação a maio deste ano.

“Aparentemente teremos uma recuperação em V, mas não sabemos se isso continuará”, supôs. Avaliando a produção industrial como um todo, “o Índice de Atividade Econômica do Banco Central mostra uma recuperação forte em maio e junho, ainda com um volume de produção muito abaixo do que foi o teto, em 2013, mas, de qualquer maneira, recuperando bem da queda em abril”, enfatizou.

O que dizem os índices

Outra boa notícia foi o aumento da confiança do empresariado. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (CNI) em agosto foi de 57 pontos, bem acima da média histórica, de 53,4 pontos.

“As vendas no varejo também deram um salto imenso, em maio e junho, em relação ao fundo do poço, em abril, tanto que estamos chegando perto do que foi o teto do volume de vendas varejistas nos últimos anos, antes da pandemia, excluindo 2014. Segundo ela, o setor de Serviços, que inclui saúde, telefone, seguros, restaurante, varejo etc., demorou a se recuperar. Caiu em março, em abril, voltou a cair em maio, mas subiu em junho. 

Em relação ao mercado de trabalho, no começo da pandemia a estimativa era de que a taxa de desemprego poderia chegar a 18%. “A taxa de fato aumentou muito, sistematicamente, em todos os trimestres móveis, mas o último resultado (abril, maio e junho) é de 13,3%, ainda abaixo do pico da série histórica, de 13,7%, em 2017 (trimestre terminado em março)”, explicou ela, com base em dados do Ministério do Trabalho a partir de postos de trabalho com carteira assinada. “O maior número de postos de trabalho fechados foi em abril”, destacou a economista.

O Índice de Confiança do Consumidor (FGV) também aumentou bastante em relação aos últimos dois meses. Quanto ao panorama fiscal, a ajuda emergencial “inevitável para quem não tinha o que comer, para os autônomos etc.” fez um buraco brutal, aumentando o déficit para R$ 458,8 bilhões de reais, nos últimos 12 meses, até junho de 2020. Quanto à dívida bruta do setor público, em final de junho, ela chegou a 85,5% do PIB. “Vamos ter uma dívida pública perto de 100% no fim do ano. Se não reajustarmos as contas públicas a partir do ano que vem, teremos dúvidas quanto à solvência do estado”.

Taxa de Câmbio

Victoria falou também sobre taxa de câmbio. “O BC está deixando que o câmbio flutue, sem intervir demais, porque isso não vai se transformar em inflação tão cedo”, avaliou. Segundo ela, o Risco País aumentou em relação ao que  era antes da pandemia, mas não chegou nem perto do que foi no passado. 

Por fim, Victoria mostrou uma tabela com o seu cenário de referência da economia em curto e médio prazos. Para o PIB de 2020, a estimativa é de -5,93%. Em relação à Selic (fim do período), o resultado projetado é de 2%. O IPCA fica em 1,71% e, a taxa de câmbio, em R$ 5,40. Para 2021, o PIB sobe 4,32%; a Selic (fim do período) vai a 3,25%; o IPCA, a 2,85%; e a taxa de câmbio cai para R$ 5,00.

Encerrando a palestra, Victoria Werneck respondeu a perguntas de internautas. A live inteira está disponível no canal da Icatu no YouTube. Assista aqui!

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