“O aumento das contas públicas é um dos maiores desafios hoje.”

Por blogicatu

Victoria Werneck, economista-chefe da Icatu, fez a sua avaliação mensal do panorama econômico mundial e brasileiro. A “live” foi ao ar em 26 de março, no canal da Icatu no YouTube, e está disponível ao público, de forma aberta.

Victoria Werneck, economista-chefe da Icatu, fez a sua avaliação mensal do panorama econômico mundial e brasileiro. A live foi ao ar em 26 de março, no canal da Icatu no YouTube, e está disponível ao público, de forma aberta. A especialista iniciou a conversa com uma abordagem global, sobre o desempenho e as perspectivas das economias brasileira e mundial. Segundo Victoria, embora a recessão do Brasil tenha sido brutal, de 4,1%, ainda assim foi melhor do que se temia há alguns meses.

Na esteira de um ano problemático, o jogo de forças dentro do governo agora é outro. Segundo a economista, a articulação do Planalto com o Centrão avançou, mas ainda não se traduziu em maioria decisiva e confiável para o Presidente no Congresso. “A reconcepção do projeto da reeleição em meio ao novo quadro político trouxe desafios redobrados à condução da política econômica que se faz necessária, especialmente em relação à fragilidade das contas públicas. E isso vem impondo à economia uma crescente e paralisante incerteza fiscal”, afirmou ela.

Agenda econômica

O Planalto já não está disposto a retomar a agenda da política econômica pré-pandemia, avalia a especialista. A volta ao plano de jogo de fevereiro de 2020, priorizando muitas reformas estruturais e privatizações em massa, parece inviável. E, tendo em conta a colossal expansão de gastos ensejada pela pandemia, o desafio da consolidação fiscal tornou-se incomparavelmente mais difícil do que já era, no início de 2020.

O temor do mercado é que, se o Presidente se deixar levar por medidas em que não haja contrapartida em termos de receita ou redução de  gastos, a situação das contas públicas, que já é crítica, pode piorar. Para 2021 ficou decidido que haverá um gasto extra de até R$ 45 bilhões, em quatro meses, com uma ajuda monetária de aproximadamente R$ 250 por família, segundo o Ministro da Economia, Paulo Guedes.

Panorama externo mais positivo

A política dos EUA em relação à China não deve mudar muito com a chegada de Biden, “ele só será menos conflitivo e mais educado”, disse a economista. “O cidadão americano não confia na China, há também o problema geopolítico”, disse. Se os dois países continuarem crescendo no ritmo atual, em 10 anos a China passa a ter o mesmo PIB que os EUA. A relação dos EUA com a União Europeia também sinaliza melhoras com a saída de Trump. Segundo a economista, hoje o panorama é mais positivo.  

Entre outros índices, Victoria apresentou os dados da recessão mundial, trazendo os resultados das principais economias do mundo em 2020. Em termos de crescimento do PIB, os EUA fecharam com -3,5%; a área do euro, com -6,6%; Reino Unido, com -9,9%; Japão, com -4,8%; e Brasil, com -4,1%. O único país que cresceu foi a China, surpreendendo com 2,3%, muito mais do que se previa (fonte: The Economist). “Em todos esses casos, exceto no Reino Unido, a queda do PIB no ano passado foi bem menor do que se esperava. As taxas de desemprego também foram menores. Já o buraco fiscal foi imenso em todos os países, por conta dos auxílios à população, exceto na China”, disse. Em seguida, Victoria comparou as projeções do crescimento mundial, em 2020, 2021 e 2022, utilizando dados do Fundo Monetário Internacional. Em geral, os resultados obtidos foram melhores do que as previsões, tanto no Brasil como no resto do mundo, frisou a economista.

A volta da inflação

Segundo Victoria, a nova discussão a nível global, não só no Brasil, é a volta da inflação. Entretanto, nas principais economias, o índice ainda está abaixo dos tetos de meta. “Os bancos centrais dos países avançados, tanto EUA, Europa como Japão, não falaram nada sobre retirar os estímulos monetários ou sobre aumentar os juros por agora. Há liquidez mundial, e essa liquidez poderia beneficiar o Brasil se a macroeconomia e o controle da pandemia não estivessem tão caóticos”, disse ela.

Victoria avaliou também os números dos nossos principais índices econômicos, utilizando as projeções Focus, IGP-M, IPCA, PIB, câmbio, taxa Selic e resultados primário e nominal. Chama a atenção a subida do IGP-M, que fechou 2020 em 23,14%, afetando de forma contundente os mais pobres, por conta do aumento de preço dos alimentos. Nos últimos 12 meses, o índice subiu 28,94%. Segundo ela, esse é outro motivo para a queda de popularidade de Bolsonaro. “O Banco Central tomou as medidas para aliviar a inflação tarde”, disse. A expectativa é que o IGP-M feche 2021 em 11,89% (previsão de 19/03/21).

Recuperação em V

Desde maio de 2020, a produção industrial mostrou uma recuperação bem forte, em “V”. Segundo ela, nem todos os setores recuperaram por igual mas a produção de janeiro já é a melhor desde maio de 2015. “Tudo o que aconteceu no ano passado foi melhor do que se esperava, ainda que sejam dados bem ruins”, disse Victoria. Por outro lado, o índice de confiança do consumidor vem caindo mês a mês, embora ainda no terreno positivo (acima de 50 pontos). A incerteza é muito grande. “Com a pandemia piorando, estados entrando em lockdown, as pessoas tendem a consumir menos e a guardar mais para épocas de ‘vacas magras’. É o que chamamos de poupança precaucional”.

O aumento das contas públicas é um dos maiores desafios hoje. Em 2019, o déficit primário era de R$ 61,9 bilhões; em 2020 disparou para R$ 703 bilhões. E, segundo ela, vai crescer mais. “A dívida pública – por volta de 99% do PIB – está em patamares de insolvência. Ainda não é insolvência porque estamos dispostos a acreditar que vai haver medidas para que ela pare de crescer”, pontuou a economista. “O que os investidores têm pela frente é uma incerteza brutal sobre o futuro. Por sorte, a PEC emergencial do teto de gastos foi aprovada”, disse.

Projeções da economista

Ao final da live, como de costume, Victoria apresentou os seus próprios prognósticos para a economia brasileira. Para ela, o PIB fecha o ano em 3,56%, melhor do que a expectativa do mercado. Para 2022, a previsão é de 3,57%, enquanto o mercado projeta 2,50%. Utilizando o cenário de referência de 25 de março de 2021, a Selic (fim de período) fecha a 5,25%, em 2021, em viés de alta; e, em 6,75%, no ano que vem. O IPCA chega a 5,20%, em 2021; recuando para 3,40%, em 2022. O IGP-M fecha o ano em 12,80%, altíssimo ainda, mas cai para 4,10%, no ano que vem. O dólar fecha 2021 em R$ 5,50 e vai para R$ 5,65 em 2022. “Se o Congresso seguir com as reformas, se a pandemia for controlada e o Ministério da Saúde mostrar boa logística, podemos ter um cenário melhor ainda para 2021.” Ao final, a economista respondeu a perguntas do público.

Assista aqui a live completa de Victoria Werneck, conduzida por Talita Raupp, gerente da equipe de previdência da Icatu.
Inscreva-se no nosso canal no YouTube e ative as notificações para não perder as próxima lives.


Publicado por blogicatu

Deixe seu comentário