Auxílio emergencial estimula forte recuperação mas deixa contas públicas em frangalhos | Blog Icatu Seguros

Auxílio emergencial estimula forte recuperação mas deixa contas públicas em frangalhos

Por blogicatu

Victoria Werneck, economista-chefe da Icatu Seguros e uma das mais respeitadas especialistas do mercado, faz uma análise do panorama econômico. Veja o resumo da apresentação feita por ela, em 12 de novembro, no nosso canal no YouTube.

A economista-chefe da Icatu, Victoria Werneck, abriu o encontro do dia 12 de novembro falando sobre o panorama da economia mundial. A live ocorreu poucos dias após o resultado da vitória de Joe Biden na eleição presidencial nos EUA e foi com esse tema que ela iniciou a palestra. Segundo Victoria, é possível esperar um novo governo bem mais “civilizado”, menos arrogante e que não vai abrir de novo as portas completamente para o comércio com a China. A guerra comercial vai continuar, mas num nível muito mais civilizado. Biden tende a se relacionar com outros países do mundo de maneira muito mais amigável, sobretudo com a União Europeia, o que é positivo para os EUA e para o resto do mundo.

Já o Brasil precisa ter muita atenção com o meio ambiente. Assim como os países europeus, o governo Biden será muito mais preocupado com essa questão, o que aumenta o risco de sanções às nossas exportações. Outro ponto crítico é a posição assumida pelo governo Bolsonaro com relação à China, alinhando-se com o governo Trump, o que também abre precedentes para sanções econômicas. Outro tema da pauta foi o aumento expressivo dos casos de Covid-19 nos EUA e na Europa, com novos lockdowns, o que certamente afetará a economia nos próximos meses.

Auxílio Emergencial

No Brasil, a recessão de cerca 5% ainda é brutal, mas, segundo a economista, bem menor do que se temia. Os estímulos fiscais e monetários do governo fizeram enorme diferença. Apesar de sua má atuação de Bolsonaro no combate à pandemia, a popularidade dele está em alta graças ao auxílio emergencial – concedido a seu contragosto – a 67 milhões de pessoas.

O auxílio impulsionou uma brusca recomposição social e regional da base de apoio popular ao presidente. Na esteira de um ano problemático, o jogo de forças no governo agora é outro. A articulação do Planalto com o “centrão” avança, mas ainda não se traduziu em maioria decisiva e confiável no Congresso.

Incerteza fiscal

O projeto de reeleição em meio ao novo quadro político trouxe desafios redobrados na condução da política econômica. E vem impondo à economia uma crescente e paralisante incerteza fiscal. O Planalto já não está disposto a retomar a agenda política econômica pré-pandemia. A volta ao plano de jogo de fevereiro parece inviável. E, tendo em conta a colossal expansão de gastos por conta da pandemia, o desafio da consolidação fiscal se tornou incomparavelmente mais difícil do que já era.

O cálculo político do presidente não poderia ser mais simples. Há poucos meses ele chegou a temer que a pandemia e seus desdobramentos tivessem comprometido de vez seu projeto de reeleição. Mas, ao final de um segundo ano de mandato caótico, ele vai se dando conta de que, por linhas tortas, sua popularidade se manteve, graças à percepção generalizada de que ele foi o patrocinador do auxílio emergencial. O presidente não tem dúvida de que esse é o trunfo que terá de preservar, custe o que custar. Aí entra a grande discussão sobre o teto de gastos.

Teto de gastos

O Governo vem se deparando com uma restrição orçamentária rígida, sendo obrigado a discutir prioridades. Mas, a menos de dois meses do fim do ano legislativo, em meio às campanhas das eleições municipais, já não há muita esperança de avanços significativos na pesada agenda pendente de reformas fiscais que, supostamente, facilitariam a preservação do teto de gastos. Sem o corte de gastos planejado no início do ano, será ainda mais difícil acomodar os custos fiscais de um programa de preservação de renda, algo similar ao auxílio emergencial, por meio de um Bolsa Família “turbinado”, sob nova marca (Renda Brasil ou Renda Cidadã). Refratário a qualquer esforço de racionalização de outros gastos sociais menos defensáveis, como o abono salarial e o seguro defeso, para liberar recursos para um programa desse tipo, o Governo vem procrastinado a solução do problema.

Há poucos meses, havia ainda quem acreditasse que a batalha da preservação do teto de gastos seria marcada por um grande embate entre o Ministro da Economia, solidamente respaldado pelo presidente de um lado, e todo o resto da Esplanada dos Ministérios e boa parte do Congresso e do Poder Judiciário de outro. Já está claro, contudo, que a batalha assumirá uma configuração bem mais simples: um cabo de guerra a cada dia mais desgastante entre o Ministério da Economia e o Planalto. Por enquanto, o Governo vem tentando dissimular as divergências.

Contas públicas em perigo

Pelo presidente, o novo Renda Cidadã ou Renda Brasil, começaria a vigorar em janeiro de 2021, atendendo de 20 a 21 milhões de famílias – 14 milhões de famílias cadastradas no Bolsa Família e mais seis ou sete milhões de famílias que recebem o auxílio emergencial. A ideia é aumentar o valor médio do atual Bolsa Família, que é de R$ 190 reais, para cerca de R$ 300 por mês. A despesa com o novo programa alcançaria R$ 60 bilhões por ano, pouco mais do que custa por mês o auxílio emergencial. Nos cinco meses, entre abril e agosto, o governo gastou R$ 254 bilhões com o auxílio emergencial de R$ 600. O problema é que com as contas públicas já em frangalhos, esse seria mais um custo para acomodar, ressaltou a economista. Só para efeito de comparação, o Bolsa Família atual custa aproximadamente R$ 30 bilhões anuais.

Incerteza

Victoria apresentou as previsões de crescimento do PIB este ano nos EUA (-4,6%), na área do euro (-8,3%), no Reino Unido (10,6%), no Brasil (-5,2%) e na China (1,8%), único país que cresce, segundo o FMI e o The Economist (primeira quinzena de outubro). As expectativas melhoraram, mas tudo depende da evolução da pandemia e da nova vacina. Em 2021, as economias emergentes, como o Brasil, puxarão o crescimento. Mas, não podemos imaginar que a partir do primeiro trimestre do ano que vem a preocupação com a Covid-19 terá terminado graças à vacina. Não será assim. Certamente continuarão as necessidades de distanciamentos social, máscaras e todo tipo de cuidado com o vírus.

O salto do IGP-M

No caso específico da economia brasileira, Victoria apresentou as projeções de inflação (IGP-M e IPCA), câmbio, taxa Selic, PIB, resultado primário e resultado anual, segundo o Banco Central. O destaque foi a forte subida do IGP-M. No fim do ano passado, a expectativa era que o índice chegasse a 6,58% do final do ano para este ano, mas em 6 de novembro ele bateu 20,47%. Essa variação reflete o aumento dos preços no atacado, resultante da brutal desvalorização cambial e do aumento de preços em dólar das commodities. Já o IPCA chegou a 3,92%, nos últimos 12 meses até outubro. Embora ainda abaixo da meta (4%), essa subida é muito ruim, pois impacta mais as famílias de renda baixa, refletindo o item alimentação.

Produção industrial

A especialista apresentou também os resultados da produção industrial, do índice de confiança do consumidor e da atividade econômica. Do ponto de vista da produção industrial, a crise da pandemia ficou pra trás. O volume de setembro corresponde a 84,2% do pico histórico, em maio de 2011, disse ela. O índice de atividade econômica do Banco Central aponta uma recuperação em V. A confiança do empresário industrial não para de subir: em outubro foi de 61,8%, um dos mais altos dos últimos anos. As vendas varejistas com ajuste sazonal (incluindo e-commerce) chegaram a 103,4%, em setembro, índice muito mais alto do que o pico histórico (101%, em agosto de 2014). Segundo ela, a recuperação foi gigantesca, refletindo especialmente o auxílio emergencial de R$ 600.

A taxa do desemprego continua crescendo, o que era esperado. No trimestre terminado em agosto, o índice foi de 14,4%. O temor era que chegasse a 20%, o que não vai acontecer. O índice de confiança do consumidor também mostrou recuperação rápida. Já o resultado das contas públicas é um desastre: chegou a R$ 655,3 bilhões, nos últimos 12 meses até setembro. A dívida bruta chegou a 90,6% do PIB, em setembro (no final de 2014 era de 57,2%), o que poderia ser considerado de insolvência caso não houvesse uma luz no fim do túnel: as reformas.

Projeções da especialista

Ao final, como de costume, Victoria apresentou suas próprias projeções para a economia. Ela prevê queda de 4,90% do PIB, em 2020. A Selic fecha o ano em 2% e, o IPCA, em 3,40%, com o PIB crescendo 4,5% no ano que vem, tendo em vista que o aumento do IGP-M é um fenômeno temporário. Em termos de juros, ela falou sobre o descompasso entre os de curto e longo prazos.

Encerrando o encontro, a economista disse que o mercado espera uma mudança rápida na política fiscal de forma a garantir que a dívida pública não continue crescendo como bola de neve. Mas até dezembro nada deve acontecer. As apostas vão para o ano que vem. A grande expectativa é que 2021 seja um ano de reformas, de privatizações e que se use o dinheiro para recomprar dívida pública.

No último bloco, Victoria Werneck respondeu a perguntas de internautas. A “live” inteira está disponível no canal da Icatu no YouTube. Assista aqui


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