“Os indicadores apontam para uma retomada bastante sólida da atividade econômica”

Por blogicatu

Victoria Werneck, economista-chefe da Icatu, analisa o mercado financeiro.

O ano de 2020 começou bem de forma geral. Houve uma súbita paralização da atividade econômica mundial desde março por conta da pandemia do Coronavírus e, agora, a economia global está com melhores perspectivas de crescimento do que há uns meses, sobretudo com a retomada das atividades devido às fases de flexibilização dos governos. Não podemos deixar de reconhecer que ainda há muita imprevisibilidade sobre o controle da pandemia. E, as recentes novas ondas de contágio na Europa e nos Estados Unidos voltam a aumentar a incerteza e ainda trarão muita volatilidade aos mercados. Entretanto, olhando para frente, o cenário é bastante mais otimista do que há poucos meses. 

As projeções de desempenho do PIB do Fundo Monetário Internacional para 2020 melhoraram. A queda prevista para o PIB mundial em junho era de 4,9% e, em outubro, era de 4,4%. Já para 2021 a projeção de crescimento cedeu um pouquinho, de 5,4%, em junho, para 5,2%, em outubro, mas nada que signifique reversão da retomada esperada. De todo modo, não há dúvidas de que para 2021, se não houver novas surpresas, o cenário econômico tende a melhorar significativamente.

A evolução da pandemia e a ocorrência de segundas ondas de casos é uma incógnita. Mas, desde que os governos se mantenham atentos e tomem decisões responsáveis para controlar novos picos da doença, já muito se aprendeu e hoje não parece nada razoável imaginar que 2021 possa ser mais um ano perdido. Ao contrário, a probabilidade de termos uma retomada forte da atividade econômica é bem alta.

O desafio do gasto público

Não está claro ainda por quanto tempo será necessário manter o excesso de gasto público para mitigar os efeitos nefastos da pandemia sobre a incapacidade de muitos para gerar a sua renda neste ambiente de distanciamento social e semi-lockdown. E, portanto, há expectativa de manutenção de déficits públicos elevados em 2021, tanto em países que podem sustentá-los como naqueles cujas contas públicas já estão muito fragilizadas. Mesmo com crescimento, no caso do Brasil, o maior desafio é equacionar as contas públicas.

Analisando a evolução de 2020, ano da pior recessão mundial desde a depressão de 1929, notamos que abril foi o pior mês do ano em todo o mundo. Para se ter uma noção, houve queda significativa do PIB no segundo trimestre de 2020 em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior até nos países avançados: -15,0% na Zona do Euro; -11,7% na Alemanha; -19,0% na França; -17,3% na Itália; -22,1% na Espanha; -21,7% no Reino Unido; e -9,5% nos Estados Unidos. No Brasil, o PIB caiu 11,4% em relação ao segundo trimestre de 2019, ou seja, menos do que nos maiores países europeus e mais do que nos Estados Unidos. Apesar disso, a flexibilização das atividades econômicas, após meses do início da pandemia, vem melhorando a economia e aumentando a confiança do mercado e do empresariado.

Confiança em alta

Gostaríamos de destacar o caso do Brasil, em que a confiança do empresário industrial, pesquisada mensalmente pela Confederação Nacional da Indústria, tem crescido sistematicamente desde o fundo do poço, em abril. Com efeito, o índice de confiança do empresário industrial fechou abril no seu menor valor histórico, 34,5 pontos, e subiu todos os meses posteriores para fechar em 61,8 pontos em outubro de 2020, significativamente acima da média histórica de 53,4 pontos (lembramos que índices acima de 50 pontos indicam otimismo). 

A confiança do consumidor, pesquisada pela Fundação Getúlio Vargas, também vem crescendo sistematicamente desde o fundo do poço histórico de abril de 2020 (59,3 pontos) e fechou outubro em 85 pontos. Esse valor já é mais alto do que a média do índice entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2020, o último mês pré-pandemia (84,7 pontos). A produção industrial tem crescido de forma sustentada e as vendas do comércio varejista também (incluindo e-commerce, é claro), de modo que todos os indicadores apontam para uma retomada bastante sólida da atividade econômica.

Tendência de inflação abaixo da meta

Em termos de inflação, houve um repique forte do IGP-M por conta do aumento dos preços por atacado. As commodities agrícolas tiveram forte aumento nos preços em reais tendo em vista aumentos nos preços internacionais, bem como a forte desvalorização do real. O real sofreu uma desvalorização de cerca de 40% desde fins de dezembro de 2019 até agora. A inflação registrada pelos produtos agrícolas no atacado (IPA-M) foi de extraordinários 43% nos doze meses até setembro. Não é de se esperar que o repique inflacionário do IGP-M (17,94%, nos doze meses até setembro) se repita em 2021. O aumento que houve nos preços por atacado se refletiu, em parte, no aumento de preços dos alimentos nos índices de preços ao consumidor (o item alimentação e bebidas dentro do IPCA subiu 11,79% nos doze meses até setembro). Mas, o IPCA cheio, índice utilizado como meta de inflação, permanece abaixo da meta central de 2020, que é de 4%. Nos doze meses até setembro, mesmo com a alta de alimentos, o IPCA registrou inflação de 3,14%. O consenso de mercado, pesquisado semanalmente pelo Banco Central, mostra um IPCA de 2,99% em 2020 (meta de 4%) e 3,10% em 2021 (meta de 3,75%), no dia 23 de outubro. Isto é, as expectativas de inflação estão bem ancoradas, inclusive abaixo das metas. Portanto, desde que se equacione a fragilidade das contas públicas com reformas, estamos indo para um caminho em que os juros baixos realmente vieram para ficar.

Voltamos novamente o foco para um dos maiores desafios que o Brasil tem pela frente: o equacionamento da fragilidade exacerbada das contas públicas. Em 2019, o déficit nominal do setor público fechou em 5,91% do PIB e o estoque de dívida bruta do Governo Federal  fechou em 75,8% do PIB. A expectativa de déficit nominal para este ano pulou para 15,8% do PIB e a dívida bruta do Governo Federal já chegou a espantosos 88,8% do PIB em fins de agosto de 2020. E continuará crescendo até o fim do ano. É fundamental mostrar que medidas serão tomadas para evitar um aumento descontrolado da dívida no médio prazo. Caso contrário, haverá dúvidas quanto à sustentabilidade da rolagem da dívida pública.

Preservar o teto de gastos se tornou o desafio central da condução da política econômica do País. Foi a Emenda Constitucional do Teto de Gastos que viabilizou o “milagre” da taxa de inflação ineditamente baixa, com a taxa real de juros básica próxima de zero em uma economia com contas fiscais insustentáveis. A simples elevação do risco de que o governo venha a ceder à tentação de afrouxar momentaneamente o teto de gastos já vem agravando o clima de alta incerteza no qual a economia vem operando, haja vista o que vem acontecendo na Bolsa de Valores e com a taxa de câmbio. Os efeitos deste cenário tenderão a se agravar se o governo brasileiro continuar vivenciando as dificuldades que tem enfrentado para resistir às pressões por expansão de gasto público que vem ganhando força em Brasília. É importante consolidar gastos sociais em 2021 e racionalizar outros gastos para viabilizar espaço no orçamento para estender a ajuda a quem mais precisa de renda por conta dos efeitos da pandemia que não acabou. Reformas que flexibilizem a rigidez orçamentária no Brasil, abrindo espaço para gastos discricionários, são fundamentais para manter a solvência do País no médio e longo prazos e garantir o caminho para o crescimento sustentado, minimizando os solavancos.

Novo programa social custará o dobro do Bolsa Família

Não é tarefa fácil. O Palácio do Planalto já deixou bem claro que pretende implementar um Bolsa Família “turbinado”, a partir de 2021, quando acabe o auxílio emergencial em dezembro de 2020. O Bolsa Família atendia aproximadamente 50 milhões de pessoas. O auxílio emergencial foi outorgado a cerca de 67 milhões de pessoas, incluindo os cadastrados no Bolsa Família. O valor do auxílio nos primeiros 5 meses foi de R$ 600 para todos os agraciados. Entre abril e agosto deste ano, o governo gastou R$ 254 bilhões com o auxílio emergencial. O custo do antigo Bolsa Família por ano era de pouco mais de R$ 30 bilhões. O novo “Bolsa Família turbinado” atenderia a todos os que já estavam cadastrados no Bolsa Família, bem como os mais de 7 milhões de “invisíveis”, como têm sido chamados os que tiveram acesso pela primeira vez à ajuda emergencial do governo. Esse novo programa social Renda Brasil/Cidadã custaria aos cofres públicos o dobro do Bolsa Família, ao redor de R$ 60 bilhões por ano. A ideia inicial desse programa seria aumentar o valor médio do atual Bolsa Família de R$ 190 para algo em torno de R$ 300 por mês. O que está em discussão é como acomodar esse gasto dentro do orçamento sem que se rompa o teto de gastos. Ainda não há uma definição para essa questão.

Cenário internacional

Em termos do cenário internacional, precisamos ficar atentos ao controle da pandemia, ao achatamento da curva da segunda onda de contágios nos países avançados, ao desfecho das eleições americanas e ao vigor da retomada de crescimento esperada. A reta final das eleições americanas já está afetando os mercados. É difícil dizer de que forma substancial poderá mudar muito o atual cenário. Não parece que as mudanças possam ser muito significativas a partir de hoje. Na nossa opinião, embora os democratas tendam a ser protecionistas, a forma de atuação no cenário internacional poderá ser menos desastrada, menos conflituosa do que a atuação do presidente Trump. O que de fato será bem diferente em uma eventual vitória democrata será a importância dada às questões do meio ambiente. Nesse aspecto, o Brasil precisará corrigir os equívocos de sua política ambiental. Em termos da guerra comercial entre Estados Unidos e China, o Brasil tem que saber proteger os seus interesses e evitar alianças fortes e precipitadas que possam prejudicar o seu comércio. Países como Austrália e Brasil deveriam conseguir, ao mesmo tempo, manter alinhamento com Estados Unidos em certas questões, sem que isso prejudique as suas relações econômicas com a China. Em um eventual governo democrata isso pareceria mais factível, sem grandes conflitos com o governo americano.

Victoria Werneck é economista-chefe da Icatu Seguros e uma das mais respeitadas especialistas do mercado.

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