Entre 2018 e 2023, mais de 4 milhões de brasileiros sofreram com algum tipo de pirâmide financeira. Ao total, as perdas no período ultrapassaram R$ 40 bilhões, impactando intensamente os participantes e a economia de modo geral.
Apesar disso, muitas pessoas continuam sendo enganadas por esses esquemas, fazendo investimentos que não são legítimos e colocando em risco o próprio patrimônio. Nesse sentido, o melhor é saber como se proteger para evitar ser uma nova vítima.
A seguir, você entenderá tudo o que é preciso saber sobre pirâmides financeiras e como identificá-las. Aproveite a leitura.
O que é pirâmide financeira?
A pirâmide financeira é um tipo de esquema fraudulento baseado no recrutamento de novos participantes, e não na venda de produtos ou serviços. Esse é um modelo insustentável, já que o lucro das pessoas depende da chegada de novos membros.
Em determinado ponto, esse sistema desmorona porque se torna impossível recrutar novos participantes. Sem a entrada de novos recursos, os pagamentos prometidos não acontecem.
Entre as características de uma pirâmide financeira, portanto, estão questões como a necessidade de recrutar outras pessoas, a baixa sustentabilidade e a promessa de grandes ganhos.
O termo se refere ao fato de uma pirâmide ter poucos no topo e muitos na base. Logo, poucas pessoas ganham dinheiro e muitas delas perdem, pois é isso que garante o lucro. A origem da expressão remete a década de 1920, quando um dos primeiros esquemas fraudulentos ocorreu.
Ela se diferencia dos investimentos legítimos, que remuneram os investidores quando ocorre a valorização dos ativos. Para entender, vamos a um exemplo simples, comparando as duas alternativas.
Na situação A, você decide participar de um investimento que funciona da seguinte maneira: você destinará R$ 500 e, após um ano, poderá receber R$ 750.
Já na situação B, você é convidado por outra pessoa a investir R$ 500 para ganhar R$ 1000 em alguns dias. Após fazer o pagamento, você é informado de que precisa convocar mais 3 pessoas para acessar o dinheiro.
No primeiro caso, nota-se que tudo funciona como se fosse um empréstimo, e os ganhos chegam ao final de um período maior. No segundo exemplo, há todos os indicativos de que essa é uma pirâmide, já que você só poderá ter ganhos se trouxer outras pessoas.
Como funciona um esquema de pirâmide financeira?
Uma pirâmide financeira costuma ter início com uma pessoa ou um pequeno grupo que promove uma oportunidade de obter lucros certos e rápidos. Essa suposta oportunidade é apresentada como se fosse legítima para captar os primeiros interessados.
A participação está condicionada ao pagamento de uma taxa ou à realização de um investimento inicial. Em seguida, os participantes são incentivados a recrutar outras pessoas, mediante a promessa de receber lucros a partir desse recrutamento.
Conforme mais pessoas são chamadas, formam-se os níveis hierárquicos da pirâmide. No geral, os níveis de cima obtêm ganhos a partir do nível inferior, inclusive pelo pagamento de incentivos como bônus por membro recrutado.
No entanto, o esquema depende de um número cada vez maior de membros novos para se sustentar. Diante da impossibilidade de captar esse volume adicional, o sistema entra em colapso — e quem entrou por último costuma ser quem perde mais, já que não há a entrada de novos membros.
Veja um exemplo de uma pirâmide financeira em funcionamento:
- um colega de trabalho comenta sobre uma nova oportunidade de investimento, prometendo dobrar o investimento em apenas um mês;
- ele consegue captar 3 interessados que trabalham na mesma equipe;
- o dinheiro pago por esses 3 novos membros é usado para garantir o lucro de membros que já estavam no esquema — na parte superior da pirâmide;
- em seguida, os 3 novos participantes precisam recrutar mais pessoas;
- cada um consegue captar mais 3 pessoas, de diferentes setores da empresa. Agora, a pirâmide já tem, pelo menos, 12 novos membros;
- em determinado momento, os membros não conseguem captar novos interessados, seja porque o esquema não se mostra mais atrativo ou porque a rede de pessoas alcançadas já se esgotou;
- sem novos membros, não há como pagar os investidores, colapsando todo o sistema.
Pirâmide financeira é crime?
Em muitos países, inclusive no Brasil, a pirâmide financeira é considerada crime. A ilegalidade se deve a diversas razões, como o fato de esse esquema, muitas vezes, se basear em enganar as pessoas, o que caracteriza fraude.
É comum que os participantes sejam enganados e acreditem que se trata de um investimento legítimo. Como não há transparência na apresentação de informações, a pirâmide é avaliada como fraude.
Também é importante considerar que as pirâmides financeiras causam danos financeiros significativos, prejudicando tanto os indivíduos quanto a economia. No Brasil, isso é considerado crime contra a economia popular, previsto na Lei n.º 1.521/51.
Embora não cite diretamente as pirâmides financeiras, o Art. 171 do Código Penal Brasileiro — que define o que é estelionato—, pode ser aplicado em casos de golpes financeiros.
Outros locais, como os Estados Unidos e diversos países da Europa, apresentam regras próprias que preveem a proteção contra esquemas de pirâmide.
Por conta disso, há diversas consequências legais para os envolvidos — especialmente os que ficam no topo da pirâmide, iniciando o sistema. Há desde a aplicação de processos civis até bloqueio de bens e prisão.
Esquemas de pirâmide financeira mais famosos
Ao longo das últimas décadas, diversas pirâmides financeiras se tornaram famosas no Brasil e no mundo. Ao conhecê-las, você pode ficar mais preparado para evitar cair nesse tipo de golpe.
Na sequência, confira quais são alguns dos mais famosos.
Esquema Ponzi
Criado em 1920 por Charles Ponzi, o Esquema Ponzi é um dos mais conhecidos da história — e esteve ligado à criação do termo “pirâmide financeira”. Nesse caso, Ponzi prometeu lucros elevados para quem investisse em cupons postais, mas tudo ruiu quando ele não conseguiu atrair novos investidores para remunerar quem já fazia parte da pirâmide.
Esquema de Bernie Madoff
Criado por Bernie Madoff, o esquema de mesmo nome se manteve ao longo de muitas décadas. Nele, Madoff prometia lucros com base em um fundo de investimento que não existia. A fraude só foi descoberta em 2008, quando houve a crise financeira nos Estados Unidos — e o esquema deu um prejuízo de bilhões de dólares.
Esquema Telexfree
Desenvolvido por Carlos Wanzeler e James Merrill, o Esquema Telexfree usava uma suposta empresa de telefonia online. Apesar da promessa de oferecer serviços telefônicos, a principal receita vinha da adesão de novos membros. Em 2014, o esquema foi encerrado pelas autoridades.
Esquema de OneCoin
A pirâmide financeira da One Coin foi criada por Ruja Ignatova, que passou a captar investidores interessados em uma suposta nova criptomoeda. No entanto, a moeda digital não tinha a estrutura necessária de registro (blockchain) e os lucros pagos eram provenientes dos novos participantes.
Por falar nisso, vale pontuar que os esquemas de pirâmide baseados em criptomoedas passaram a ocorrer nos últimos anos, devido à popularização desses criptoativos. Com a criação do bitcoin no final de 2008, muitas outras moedas digitais também surgiram — mas nem todas são legítimas.
Em relação a outros tipos de pirâmides, as baseadas em criptomoedas se destacam por utilizarem a tecnologia como base para dar uma suposta legitimidade. Além disso, é comum que as transações sejam anônimas e irrastreáveis, o que torna mais difícil a documentação e comprovação posterior.
Embora nem todo investimento em criptomoedas seja um golpe, as opções que prometem retornos rápidos e valor elevado normalmente são pirâmides financeiras que usam essa tecnologia.
Diferença entre pirâmide financeira e marketing multinível
Ao falar em pirâmide financeira, uma confusão que costuma ocorrer é com o chamado marketing multinível (MMN). Porém, essas são duas modalidades diferentes e, inclusive, o MMN é legal e regulamentado.
O principal motivo da confusão entre os termos é que o marketing multinível também prevê o recrutamento de outros participantes. No entanto, há uma diferença fundamental: a maior parte dos ganhos dos integrantes vem da venda de produtos ou serviços.
Embora seja possível obter comissões a partir das vendas de membros recrutados, por exemplo, essa não é a única opção para gerar recursos. Sendo assim, o foco está em criar uma rede de distribuidores, aumentando o alcance de venda dos produtos ou serviços.
Essa diferença fundamental gera outra distinção para a pirâmide financeira: a sustentabilidade. Se, em determinado momento, nenhuma pessoa nova se juntar a uma empresa que adota o marketing multinível, os membros ainda terão ganhos se venderem os produtos ou serviços. O mesmo não acontece com a pirâmide, que depende da entrada constante de novos participantes.
Para entender melhor, considere uma empresa de cosméticos que usa o marketing multinível. A fonte principal de receita é a venda de itens de maquiagem, perfumes e produtos de cuidado pessoal.
Para atingir um público maior, a marca foca na criação de uma rede de revendedoras. Quem se interessar por vender os produtos pode recrutar outros revendedores, ganhando uma pequena parte sobre as vendas realizadas pela “equipe”.
Note que um revendedor que recruta outros provavelmente dependerá das próprias vendas para compor a maior parte de seus ganhos. A mecânica, portanto, é bem diferente do que acontece nas pirâmides.
Algumas empresas conhecidas que usam ou já utilizaram estratégias de MMN incluem:
- Avon;
- Natura;
- Tupperware;
- Herbalife;
- Mary Kay.
Como identificar um sistema de pirâmide financeira?
Como você viu, a pirâmide financeira pode causar muitos prejuízos por ser insustentável. Para se proteger, o melhor é saber como identificar esse tipo de esquema.
Há alguns pontos de alerta que são especialmente úteis para identificar o golpe, como:
- promessas de ganhos irreais e rápidos;
- falta de produtos e serviços legítimos;
- ênfase no recrutamento de novos membros.
Por exemplo, se você foi convidado por um amigo ou familiar para fazer um “investimento” em uma empresa, mas a pessoa não sabe explicar o que o negócio vende, há grandes chances de se tratar de uma pirâmide. Outro ponto é se você estiver negociando ativos do mercado financeiro, é importante acessar o site oficial CVM (Comissão de Valores Imobiliários) e verificar a possibilidade para esse tipo de operação.
Também é essencial ter atenção ao que dizem as organizações de proteção ao consumidor ou investidor. Alguns dos principais órgãos e entidades incluem:
- Programa de Proteção e Defesa ao Consumidor (Procon);
- Banco Central do Brasil (Bacen);
- Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
Associações de empresas legítimas de investimentos ou de varejo também podem emitir alertas sobre pirâmides financeiras. Por isso, vale a pena ficar sempre atento a notícias e comunicados sobre o assunto.
5 dicas para evitar cair em pirâmides financeiras
Ter educação financeira não envolve apenas saber como gastar menos do que seus ganhos. Também é preciso estar preparado para evitar fraudes e situações que causam prejuízos, desde o golpe do Pix até uma pirâmide financeira, por exemplo.
Ao seguir algumas dicas simples, você conseguirá identificar pirâmides financeiras com mais facilidade e poderá evitá-las para proteger seu dinheiro.
Veja 5 dicas essenciais para colocar em prática.
1. Faça uma pesquisa detalhada
Antes de investir qualquer quantia, é essencial realizar uma pesquisa detalhada sobre a empresa e o tipo de investimento que você deseja fazer.
Dependendo do caso, é possível encontrar relatos e até reclamações ou alertas de outras pessoas. Por isso, não tome decisões de modo precipitado, sem fazer essa busca de informações bem completa.
2. Consulte fontes confiáveis antes de investir
Como parte da sua pesquisa, também é essencial priorizar a pesquisa em fontes realmente confiáveis. Quem tenta recrutar outra pessoa para a pirâmide pode oferecer materiais próprios, fazer convites para participar de encontros ou indicar o site da empresa, por exemplo. No entanto, nenhuma dessas fontes é totalmente confiável por não ser isenta, concorda?
Para evitar problemas, o ideal é buscar ajuda dos órgãos de defesa do consumidor. É possível tanto verificar se há comunicados ou avisos sobre o investimento específico, ou aproveitar para tirar dúvidas sobre a oportunidade.
3. Verifique a legitimidade da empresa
Além de pesquisar o investimento em si, é fundamental conferir se a empresa é legítima. Afinal, o negócio pode ser de fachada, apenas para aparentar se tratar de uma oportunidade legítima.
Uma dica é pesquisar o CNPJ do negócio e ver se ele está ativo, quando foi aberto e quais são as atividades listadas. Caso a proposta seja de investimento financeiro, como em criptomoedas, é essencial verificar se há a regulamentação da CVM ou do Bacen.
Já no caso de empresas que deveriam ser de vendas, verifique se realmente é possível que as pessoas comprem produtos ou contratem serviços. Dessa forma, você conseguirá entender melhor se a oportunidade tem sustentabilidade.
4. Desconfie de promessas de ganhos rápidos
Sabe aquela frase famosa, que diz que “não existe dinheiro fácil”? Pois é! Além dos passos anteriores, você deve desconfiar de promessas de ganhos elevados e rápidos. Geralmente, se parecer bom demais para ser verdade, é porque há um alto risco de ser uma pirâmide financeira.
Lembre-se de que não há investimento sem risco e quanto menor for o tempo para recuperar seu dinheiro, menor é a segurança. Se você quiser construir patrimônio, o foco deve estar em investir no longo prazo, em alternativas legítimas.
5. Tenha cuidado com a estrutura de recrutamento
Como a entrada contínua de novos membros é uma das características das pirâmides financeiras, você deve ter cuidado com uma eventual estrutura de recrutamento. Se houver uma grande pressão para conquistar novos participantes, por exemplo, esse é um sinal de alerta importante.
Por isso, desconfie de oportunidades que não focam na venda de produtos ou serviços, ou em investimentos legítimos e, sim, na atração de mais pessoas. Com esse cuidado, você poderá evitar cair em um golpe.
O que fazer caso for vítima de pirâmide financeira?
De acordo com a lei 1.521/51, este tipo de esquema se configura como crime, mas tem crescido cada vez mais nos últimos anos. Mesmo tendo atenção, pode acontecer de você se tornar vítima de uma pirâmide financeira. Isso é ainda mais frequente quando uma pessoa em que você confia tenta recrutá-lo para o esquema. Nessas situações, é essencial saber como agir ao ser vítima dessa fraude.
O primeiro passo é coletar o máximo de evidências possível. Verifique todos os registros, documentações e comprovantes de transferências para atestar que você foi vítima.
Também é necessário reportar a situação às autoridades competentes, incluindo registrar um boletim de ocorrência na delegacia. Isso é necessário para que as medidas cabíveis sejam tomadas.
Inclusive, é importante conscientizar outras pessoas para evitar novas vítimas. Comente com amigos e familiares, se for o caso, faça publicações online para alertar sobre a pirâmide.
Ao longo de todo esse processo, o ideal é procurar apoio jurídico e financeiro, recorrendo, também, a um advogado especializado no assunto, por exemplo.
Entre as autoridades e organizações que você pode procurar estão:
- Consumidor.gov;
- Procon do seu estado;
- CVM;
- Polícia Federal;
- Ministério Público.
Como denunciar esquemas de pirâmide financeira?
Mesmo não sendo uma vítima, você pode denunciar uma pirâmide financeira. Ao ser abordado para participar de um esquema desse tipo, por exemplo, você pode fazer a denúncia para combater a fraude.
Nesse sentido, você deve coletar todas as informações necessárias, como nome e contato da empresa. Se for necessário, reúna documentos, registros e mesmo testemunhas.
Faça um boletim de ocorrência na delegacia da sua região, para dar início à investigação pela Polícia Civil. Também é possível buscar outros órgãos, como a Polícia Federal e até o Ministério Público. Entidades reguladoras e de defesa, como Procon e CVM, também podem ser acionadas.
Realizar esse tipo de denúncia é fundamental para prevenir o desenvolvimento da fraude, impedindo que outras pessoas sejam vítimas. Essa também é uma forma de aumentar as chances de os recursos serem recuperados, ainda que parcialmente.
Ademais, a denúncia torna mais pessoas conscientes sobre esse tipo de fraude e os envolvidos podem ser devidamente responsabilizados.
Ao chegar até aqui, você conferiu como uma pirâmide financeira funciona e o que fazer para identificar uma. Com essas informações, você consegue proteger melhor o seu patrimônio, evitando golpes desse tipo.
Quer saber como cuidar ainda mais do seu dinheiro? Confira as principais dicas para organizar sua vida financeira.